LGBTfobia na maior capital brasileira

Pela primeira vez na história da nossa cidade, conduziu-se uma pesquisa a fim de procurar entender a relação da cidade de São Paulo com o universo LGBTQ+. Graças à iniciativa da Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência, foi realizado o estudo “Viver em São Paulo: Diversidade” e hoje conseguimos ter uma leitura baseada em números de quão preconceituosa e intolerante a sociedade paulista se apresenta quanto o assunto é diversidade sexual. É incrível ver algumas respostas vindas de uma das cidades brasileiras mais “modernas”, “inovadoras” e “diversa” do planeta. Cidade esta que não só concentra um percentual gigantesco de pessoas LGBTQ+ que largaram suas cidades natais para uma vida mais digna e que também sedia há 22 anos a Parada do Orgulho LGBT. A pergunta que me surgiu ao ler a pesquisa é a seguinte: “se é assim em São Paulo, como deverá ser nas cidades menores e menos abertas à diversidade?”.

Termômetro da LGBTfobia

Um dos grandes resultados dessa pesquisa, que entrevistou 800 pessoas na capital paulistana, é o índice de LGBTfobia. O objetivo com esse índice é classificar a população paulistana de modo a compreender quão favoráveis ou desfavoráveis as pessoas são em relação a algumas afirmações acerca da temática LGBTQ+. Cada opinião recebeu um peso diferente para o cálculo, considerando o posicionamento declarado a cada uma das frases apresentadas. Para cada resposta a favor, era atribuído peso 0, ao passo que para cada resposta contra se atribuía um peso 1. Para respostas do tipo “não sei” ou “não quero responder”, peso 0,5. O resultado final é uma escala que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 0, mais favorável é o(a) respondente em relação aos temas LGBTQ+; e quanto mais próximo de 1 é o índice, mais contrário a pessoa é. Enfim, o resultado da pesquisa “Viver em São Paulo: Diversidade” mostrou um índice de LGBTfobia de 0,46. Ou seja, este termômetro mediu que o(a) paulistano(a) é timidamente mais favorável às questões LGBTQ+. Fala sério, né? Depois de mais de 40 anos de luta, de passeatas, paradas, movimentos e principalmente de muitas pessoas mortas, assassinadas brutalmente, ainda temos uma megalópole impregnada de preconceitos e estigmas.

Quando se olha alguns recortes dos entrevistados dessa pesquisa, vemos que existe alguns segmentos mais favoráveis e aderentes ao tema LGBTQ+:

Jovens (de 25 a 34 anos) = índice 0,35

Mulheres  = índice 0,42

Maior escolaridade = índice 0,38

Outras religiões/Sem religião = índice 0,35

Maior renda familiar = índice 0,42

Tolerância

Entre os respondentes, 50% acreditam que a cidade é totalmente tolerante em relação à população LGBTQ+. O que mais impressiona é o percentual de pessoas indiferentes ao tema: 23%. Quando estamos falando de inclusão, a neutralidade de opiniões acaba jogando contra. É aquela história, não ter partido sobre o assunto é aceitar o status quo, ou seja, a perpetuação das desigualdades, das injustiças, das discriminações. Pelo menos essa é a minha opinião. Quanto à parcela de pessoas que acreditam que a cidade de São Paulo é totalmente intolerantes, o percentual medido pela pesquisa é de 23% também.

Jovem de costas vestindo uma jaqueta jeans onde há estampada a frase "Born This Way" (nascido assim). Ao fundo, algumas pessoas em pé assistindo ao que parece ser uma parada do orgulho LGBT

Flagrantes de Preconceitos

A pesquisa também quis saber o percentual de pessoas vivenciaram ou presenciaram situações de preconceito de gênero ou de orientação sexual. Os números são surpreendentes. Abaixo, os percentuais de quem passou na pele ou que assistiu a um flagrante de preconceito conforme algumas situações:

Em espaços públicos = 51%

No transporte público = 46%

Na escola ou faculdade = 39%

Nos shoppings ou comércio = 39%

Em bares ou restaurantes = 38%

No ambiente de trabalho = 35%

Entre família = 34%

Em banheiros públicos ou de estabelecimentos privados = 29%

O que chama a atenção é que a discriminação está em todos os lugares, em qualquer hora. Pelo menos 3 pessoas em cada 10 vivenciaram ou presenciaram preconceito a gênero ou orientação sexual! Até dentro de casa, entre familiares!! O percentual de 34% é realmente assustador.

Empatia em baixa

Quando assuntos ligados à vida pessoal das pessoas são abordados, percebe-se claramente a ausência de empatia e de amor ao próximo. Alguns percentuais chegam ao absurdo uma vez que estamos em pleno século XXI, como é o caso de que “2 em cada 10 paulistanos(as) são contra a adoção de crianças por casas homossexuais ou contra o casamento homoafetivo”. Sério mesmo? Até entendo as pessoas que não têm opinião formada ainda sobre o assunto, mas ser contra a decisão de outra pessoa em que nada lhe afeta… aí é demais! Outro aspecto que sinaliza um puritanismo exacerbado e sem fundamentos é a quantidade de pessoas que são contra as demonstrações de afeto entre pessoas homossexuais. 30% dos respondentes são contra pessoas do mesmo sexo demonstrarem afeto, como beijo ou abraço, em locais públicos. Agora, pasmem! 38% dos respondentes são contra troca de carinhos na frente de seu familiares!! Oi? Se não pode demonstrar afeto em local público e nem dentro de casa, onde as pessoas são fazer isso?? E percebam que está se falando em “demonstração de afeto”. De afeto! E não de ira, ódio, repulsa… Confesso que não entendo a lógica da coisa.

É extremamente importante que estudos como este sejam gerados e debatidos entre os cidadãos. É preciso de dados e fatos para gerarmos mudanças reais, palpáveis. E também para mostrar aos céticos ou desavisados que o “bode ainda está na sala” e que precisamos arregaçar as mangas e mudar nosso olhar em relação às diferenças. No final do dia, todos sairemos ganhando. Afinal de contas, quem não é diferente? Quem não quer ser único? Enquanto estivermos indiferentes à diversidade humana, teremos falhado como humanidade.