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Empatia Algorítmica e Inteligência Empática (IE)

Um algoritmo pode ser mais empático do que um ser humano? Vou tratar aqui sobre dois estudos recentes que procuraram colher as percepções de pacientes sobre a qualidade de atendimento que receberam. Em ambas as pesquisas, havia um grupo que interagia pelo chat com um algoritmo, com uma inteligência artificial; e outro, que trocava mensagens com profissionais de saúde reais, seres humanos. Os resultados são para parar e pensar.

Apresento o primeiro do estudo publicado em janeiro de 2024, que utilizou uma tecnologia diagnóstica do Google, chamada AMIE, sigla pra “Articulate Medical Intelligence Explorer” (algo como Explorador de Inteligência Médica Articulada). O estudo consistia numa consulta 100% feita por chat, a partir da troca de mensagens escritas. Os participantes não sabiam se estavam conversando com um humano ou com uma máquina. Ao final dos atendimentos, os pacientes faziam avaliações de 3 dimensões: “grau de confiança no atendimento”, “abertura e honestidade percebidas” e “empatia”. Em paralelo, um grupo de especialistas médicos avaliavam outras 3 dimensões: “Acuracidade de Diagnóstico”, “Recomendações” e “Plano de Gerenciamento”.

Esse gráfico em forma hexagonal mostra as seis dimensões de avaliação dos atendimentos feitos pelo AMIE e por clínicos gerais. Quando as pontas dos hexágonos se sobrepõem ou ficam muito próximas, indica-se que os resultados foram equivalentes. Que é o caso de “Acuracidade de Diagnóstico” e “Recomendações”. Ou seja, nestes dois critérios, os pacientes avaliaram ser humano e algoritmo como sendo equivalentes. Até aí, tudo bem. É de se esperar que, com a gigantesca capacidade e velocidade de processar, cruzar e analisar dados, o algoritmo tenha demonstrado igual ou maior performance que médicos reais nestes dois aspectos mais relativos a dados.

O lance é que o AMIE superou os clínicos gerais de verdade em critérios relacionais, como “Confiança”, “Plano de Gerenciamento” e principalmente “Empatia”.

gráfico de radar que mostra as avaliações nas 6 dimensões da pesquisa sob a perspectiva do médico humano e do ator-paciente.

Alan Karthikesalingam, cientista de pesquisa clínica do Google Health em Londres e coautor do estudo, alerta que os clínicos gerais provavelmente não estavam acostumados a atender pacientes por meio de bate-papo por chat, o que pode ter afetado o desempenho e, portanto, a avaliação do atendimento prestado.

O segundo estudo foi feito em 2023, por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos EUA, que comparou respostas dadas por médicos de verdade com as dadas pelo ChatGPT a pacientes reais, na plataforma Reddit.

Os pesquisadores escolheram aleatoriamente 195 respostas de médicos e pediu que o ChatGPT respondesse à mesma pergunta. Depois, um painel composto por 3 profissionais de saúde avaliou cada mensagem, sem saber qual delas havia sido escrita por um ser humano ou pela IA. Em 79% das vezes, o trio de avaliadores preferiu as mensagens do ChatGPT às respostas dos médicos reais, classificando-a como de maior qualidade e clareza.

As respostas de profissionais de saúde reais receberam uma pontuação média de 3,33 para “qualidade” e de 2,33 para “empatia”. A avaliação do ChatGPT teve média de 4 para “qualidade” e 4,67 para “empatia”. As gradações “boa” ou “muito boa” dadas para o critério “Empatia” foram 9,8 vezes maiores para a inteligência artificial do que as dadas por seres humanos.

O gráfico a seguir mostra a quantidade de respostas distribuídas no eixo horizontal, numa escala que vai da pior avaliação, chamada de “sem empatia”, até o ponto máximo, denominada de “muito empático(a)”. A distribuição das respostas para a classe médica real representadas pela área verde, concentra-se nos níveis “sem empatia” até “moderadamente empático(a)”, ou seja, mais à esquerda do eixo. Já as avaliações dadas ao ChatGPT, na cor marrom, concentram-se mais à direita do eixo, indo de “moderadamente empático(a)” até “muito empático(a)”. Mais uma vez, a máquina superando o humano nos dotes de conexão empática.

gráfico com duas áreas, uma que indica os resultados da avaliação de médicos e outra da avaliação do chatbot. A área mais à direita, que é a do chatbot, indica melhores indicadores de empatia

Particularmente, penso que essa conexão empática com algoritmos seja possível mesmo. Não só porque vivemos dias com menos contato humano, mas porque a calibração de respostas desses algoritmos é muito eficiente. Em outras palavras, além do fato de estarmos investindo menos do nosso tempo em diálogo olho no olho com pessoas, de forma presente e realmente atenta, soma-se o fato que essas inteligências artificiais conseguem varrer, analisar e fazer infinitos cruzamentos de dados com uma rapidez e eficiência que supera o próprio processamento de um cérebro típico de um ser humano.

Entendo que a convivência com essas inteligências robóticas é um caminho sem volta. E acredito que, na grande maioria das vezes, a humanidade saberá fazer bom uso dessa tecnologia. O que mais me preocupa é a terceirização do contato humano, do diálogo franco sem tempo de terminar e sem compromisso de resolver algo. A gostosa prática de jogar conversa fora é uma das formas mais prazerosas e verdadeiras de conexão entre duas ou mais pessoas.

Enquanto acompanhamos o avanço da empatia algorítmica, que possamos investir um tempo também nas melhorias e avanços da empatia humana, movida por carne, osso e alma. É urgente reapresentarmos ao nosso cérebro as maravilhas que o fato de estar com outras pessoas nos traz, tanto do ponto de vista emocional, social quanto fisiológico.

A principal descoberta do estudo mais longo já conduzido na história, que durou oito décadas e foi coordenado pela Universidade de Harvard, mostrou o poder nas conexões sociais. O Estudo de Desenvolvimento Adulto, procurou descobrir as causas da felicidade e da boa saúde mental. Os resultados são surpreendentes: aquelas pessoas que cultivaram vínculos fortes com amigos, familiares e parceiros afetivos foram mais felizes e viveram mais que as demais pessoas que não tiveram vínculos de qualidade.

Que tal começarmos a falar também da IE, da nossa “Inteligência Empática”? Que tal procurar oportunidades para “desenferrujar” os milhões de neurônios do córtex pré-frontal e fazermos o que nosso cérebro melhor sabe fazer, além de nos manter vivos: conectarmos uns aos outros como um grande coletivo, uma comunidade única e interdependente.

Fontes:

Primeiro estudo citado: AMIE: A research AI system for diagnostic medical reasoning and conversations

Segundo estudo citado: Comparing Physician and Artificial Intelligence Chatbot Responses to Patient Questions Posted to a Public Social Media Forum | Artificial Intelligence | JAMA Internal Medicine | JAMA Network

Estudo de Harvard: Over nearly 80 years, Harvard study has been showing how to live a healthy and happy life — Harvard Gazette

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