Um dos maiores dilemas discutidos pela neurociência social e afetiva dos últimos anos é o impasse humano entre pertencimento versus autenticidade; Qual nosso compromisso? Pertencer ao grupo social que nos rodeia ou prezar com fidelidade e respeito a nossa autenticidade? Na neurociência chamamos esse diálogo de “dilema quintessencial da experiência humana”.
À medida que evoluímos como seres sociais, aprendemos que precisamos do grupo para sobreviver e também para manter nossa saúde mental. Desde a infância, buscamos pertencer, porque o pertencimento oferece proteção, afeto e reconhecimento. Mas, paradoxalmente, também precisamos sobreviver ao grupo que pertencemos, já que nem sempre o que o coletivo espera de nós combina com quem realmente somos.
A evolução não favorece apenas quem se encaixa, e sim quem traz diversidade: é ela que garante adaptação, força e inovação aos grupos humanos. No entanto, conforme crescemos, o desejo de pertencer pode se transformar em algo frustrante: uma tentativa constante de se ajustar, em vez de simplesmente ser. Esse conflito silencioso entre se encaixar e se expressar corrói, aos poucos, nossa saúde mental.
Cuidar da nossa saúde mental é, por si só, um grande desafio. Envolve a criação de hábitos diários, observação de padrões de comportamentos, planejamento e execução de mudanças, ação compromissada e o monitoramento das tarefas atribuídas.
Para muitas pessoas que pertencem a minorias, o dilema entre pertencer e ser autêntico se torna ainda mais intenso. Desde cedo, elas aprendem que a aceitação social costuma vir acompanhada de condições: é preciso disfarçar, adaptar ou minimizar partes de si para ser incluído.
Esse esforço constante de ajustar-se ao olhar do outro cobra um preço alto da saúde mental, porque transforma o simples ato de existir em um exercício de negociação. Entre o desejo de ser reconhecido e o medo de ser rejeitado, muitas acabam silenciando suas singularidades para caber em espaços que não foram pensados para elas. No fim das contas, o que mais fere não é a diferença em si, mas a necessidade de escondê-la para ser visto.
Cuidar da saúde mental, em meio à diversidade humana, é aprender a viver com presença e gentileza diante daquilo que somos, e com todas as nossas diferenças, emoções e contradições. A ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), uma das vertentes terapêuticas mais alinhadas com a neurociência social atualmente, nos convida a cultivar a flexibilidade psicológica. Ou seja, a capacidade de abrir espaço para o que sentimos, sem lutar contra cada emoção ou pensamento que aparece, e escolher agir de acordo com o que realmente importa.
Em um mundo que tenta nos encaixar em moldes estreitos, agir de forma compromissada com nossos valores é um gesto de liberdade: é decidir caminhar na direção de uma vida com sentido, mesmo quando há medo, dor ou julgamento. Assim, a saúde mental se torna menos sobre eliminar o sofrimento e mais sobre viver plenamente, com coragem para ser quem se é e respeito para permitir que o outro também seja.
O fortalecimento da saúde da mente começa por reconhecer que o seu jeito de existir é legítimo e que você não precisa se encaixar em padrões para ter valor. Busque espaços onde possa ser quem é sem medo, seja em grupos de apoio, amizades seguras ou comunidades que acolham suas vivências. Pratique autocompaixão, falando consigo com gentileza, respeitando seus limites e celebrando pequenas vitórias, isso também é resistência. E lembre-se de pedir ajuda quando precisar: procurar profissionais, redes de apoio ou pessoas de confiança não é sinal de fraqueza, mas de coragem e cuidado consigo mesmo.
Os dilemas contemporâneos atravessam nossa existência para além da pele para dentro, mas também aos grupos que participamos, suas exigências e suas incompatibilidades de adaptação e inclusão de nossas diversidades, lidar com isso requer tempo e muita das vezes ajuda profissional.
“Já chegou o tempo de ensinar as crianças que na diversidade há beleza e há força”.
Maya Angelou
Rafael Morelli é psicólogo, especialista em pediatria e neurodiversidade, mestre em psiquiatria e doutorando em ciências da infância e do desenvolvimento humano. Fora do consultório, é pesquisador na área sobre o impacto de gênero, sexo biológico e escolaridade em transtornos do neurodesenvolvimento como autismo e dislexia. Membro do laboratório de estudos em Dislexia e Cognição Humana da Universidade Presbiteriana Mackenzie.


