Silhueta humana no topo de uma montanha durante o nascer do sol. Ao fundo e à direita, uma outra pessoa no cume de outra montanha.

Conexão além das montanhas

Em 1956, o psicólogo suíço Jean Piaget e sua colaboradora Bärbel Inhelder criaram um experimento que se tornaria um clássico e uma excelente ferramenta para compreensão do desenvolvimento cognitivo humano. Chamado de Tarefa das Três Montanhas, o experimento buscava entender como as crianças enxergavam o mundo e pretendia descobrir se elas conseguiam imaginar o ponto de vista de outra pessoa.

Apesar de até hoje haver críticas quanto à forma como foi concebida e executada, este estudo piagetiano ajudou a revelar como o pensamento infantil evolui e como o egocentrismo se comporta com o avanço da idade da criança.

Vale lembrar que este foi um dos estudos, dentre outros, que deu origem à classificação que existe até hoje entre empatia afetiva e empatia cognitiva. A empatia afetiva ou emocional é aquela que nos permite sentir o que o outro está sentindo. Enquanto a empatia cognitiva é aquela que nos permite imaginar no lugar do outro, sob a perspectiva do outro.

 

Como o experimento funcionava

As crianças observavam uma maquete tridimensional formada por três montanhas de tamanhos e características diferentes. Cada uma tinha detalhes visuais particulares, como neve no topo, uma casinha ou uma árvore.

Depois, sentadas diante da maquete em uma determinada posição, as crianças recebiam 10 fotos de ângulos diferentes da mesma maquete e recebiam a orientação de escolher a imagem que representava o que ela via. Depois, um dos pesquisadores sentava-se em outro ponto, também de frente para a maquete. Daí era solicitado à criança que escolhesse a foto que correspondia à visão que o adulto tinha da maquete. A ilustração em preto e branco da maquete a seguir mostra quatros vistas diferentes da mesma maquete, a partir dos pontos A, B, C e D.

Em seguida, o pesquisador trocava de lugar e pedia novamente que a criança indicasse qual foto indicava a visão dele da maquete.

O desafio parecia simples, mas exigia algo complexo: ver com os olhos do outro.

 

O que Piaget e Inhelder descobriram

As crianças menores, entre 4 e 7 anos, escolhiam imagens que refletiam apenas o próprio olhar delas. Isso reforçou o que Piaget chamou de pensamento egocêntrico, que é a tendência natural de acreditar que todos veem o mundo da mesma forma.

Entre crianças com 7 e 8 anos, os resultados do experimento mudavam. As crianças demonstravam uma capacidade iniciante de levar em consideração a perspectiva da outra pessoa. Ou seja, crianças a partir do primeiro septênio demonstravam compreender que cada pessoa tem um ponto de vista diferente, indicando um pensamento mais flexível e social, base essencial para a empatia cognitiva.

 

Por que o legado de Piaget importa até os dias de hoje

A Tarefa das Três Montanhas vai além da psicologia infantil, ajudando a gente a compreender o desenvolvimento humano. Os fundamentos do experimento de Piaget podem ser percebidos em três frentes de pensamento:

1) Teoria do Desenvolvimento Cognitivo, de Jean Piaget:

É uma das mais influentes teorias da psicologia e da educação. Explica como as pessoas constroem conhecimento ao longo da vida, a começar pela infância. Piaget acreditava que o conhecimento não é transmitido, mas construído ativamente por nós através da interação com o meio. Ou seja, aprendemos fazendo, testando e ajustando nossas ideias e não apenas recebendo informações como se fôssemos um recipiente vazio. Pela Teoria do Desenvolvimento Cognitivo, o erro aparece como parte natural e esperada do processo de aprendizagem, como um sinal de construção cognitiva.

 

2) Teoria Sociocultural, de Vygotsky:

Vygotsky foi contemporâneo de Piaget. É perceptível a influência piagetiana em seu trabalho, embora Vygotsky tenha apresentado uma série de ressalvas em relação ao trabalho de seu colega. Segundo esta teoria, aprendemos e construímos pensamento não sozinhos, mas na interação com outras pessoas e com a cultura em que vivemos. Enquanto Piaget destacava o desenvolvimento individual da criança, Vygotsky olhava para o contexto social. Dizia que o aprendizado começa entre as pessoas, no nível social, e depois é internalizado, no nível individual.

 

3) Teoria da Mente (ToM), de David Prema e Guy Woodruff:

Os trabalhos de Piaget e Vygotsky ajudaram e muito a construir essa outra teoria da década de 70. O termo foi usado pela primeira vez em 1978, pelos psicólogos que a criaram. Somou-se a perspectiva de Piaget, que entendia a empatia como “ver o mundo com novos olhos”, com a perspectiva de Vygotsky, que compreendia que a empatia é “sentir o mundo com o outro” como resultado das relações humanas e do diálogo. Em outras palavras, a empatia seria tanto um exercício mental quanto um laço social, nascendo do encontro entre pensamento e convivência. A Teoria da Mente é tida por alguns estudiosos como um dos conceitos mais importantes da psicologia cognitiva e das neurociências sociais.

 

Implicações Atuais

O experimento de Piaget continua atual. A lição da Tarefa das Três Montanhas, que depois se desdobrou em uma série de novos estudos e teorias, é simples e poderosa pois nos mostra como a tomada de perspectiva do outro eclode na mente humano. Experimentos semelhantes nos ajudam a entender de que forma o ser humano desenvolve a aprendizagem de se desapegar do seu próprio ponto de vista e a investir nas relações sociais com o outro.

Nos dias de hoje, educadoras e educadores frequentemente utilizam os princípios e a compreensão desses experimentos para orientar suas práticas de ensino e apoiar o crescimento cognitivo de suas turmas de estudantes.

Afinal de contas, compreender o outro, seja no ambiente educacional, laboral ou social, é o primeiro passo para construir relações mais humanas, acessíveis e inclusivas.

 

Referências:

PIAGET, Jean; INHELDER, Bärbel. A concepção de espaço na criança. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. (Tradução de Christiano Monteiro Oiticica).

VYGOTSKY, L. S. Mind in society: the development of higher psychological processes. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1978.

PREMACK, David; WOODRUFF, Guy. Does the chimpanzee have a theory of mind? Behavioral and Brain Sciences, v. 1, n. 4, p. 515-526, 1978.

 

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